quinta-feira, 4 de novembro de 2021

O Pão

 


 Odiava fazer compras, mas quando resolvia, encarava como uma verdadeira missão. Se preparou financeiramente, pesquisou a melhor marca, pesquisou a loja mais barata e lá foi ela encarar o busão. Chegando na loja, ficou muito satisfeita com o formato e a aparência robusta do novo secador de cabelo. Doía-lhe a alma ter que gastar aquele volume de dinheiro, mas falava para si mesma que valia a pena, pois esse secador iria ser muito usado e durar bastante. A vendedora lhe avisou de um “porém” que lhe deixou apreensiva: o plug do secador era padrão americano, maior que o buraco da tomada. No entanto, segundo a vendedora, ela acharia um adaptador com facilidade em qualquer loja de material elétrico.


Sua missão tinha adquirido uma complexidade que não tinha previsto. Não iria voltar pra casa com um secador que não conseguisse usar. Procurou na mesma rua uma loja para comprar a peça que iria lhe atender. Achou a loja, mas o adaptador não. Começou a prever que tinha sido enganada pela vendedora. Passou em mais duas lojas e nada. Já estava anoitecendo e resolveu voltar pra casa.

Morava sozinha num kitnet de um cômodo que lhe atendia razoavelmente bem. O locador morava no mesmo prédio e era uma pessoa tranquila e com boa vontade, sempre simpático e prestativo. Ao vê-lo, resolveu lhe perguntar se por acaso ele tinha algum adaptador que lhe resolvesse o problema. O homem disse que não, mas que esperasse um pouco. Pegou um adaptador da própria parede, uma faca quente e arrombou um dos furos. Testou com o plug do secador. Sucesso total.

Ela subiu agradecida e animada, embora ligeiramente temerosa de causar algum curto circuito com esse jeitinho do seu senhorio. O mais importante é que tinha completado a missão e ainda economizado, já que não precisou comprar mais uma peça. Queria muito testar o secador, mas a fome era maior. Como não tinha muita coisa que pudesse comer rapidamente, resolveu fazer um pão frito.

A fome estava muito grande. Não tinha percebido quanto tempo estava sem comer e tudo parecia urgente: o secador e a comida. Abriu o pão, colocou na frigideira e olhou para ela como se fosse demorar uma eternidade. Olhou para o secador que ainda estava na sacola e o desembrulhou. Pegou o adaptador que seu vizinho improvisara e viu que encaixava perfeitamente. Precisava de uma tomada e só tinha uma no banheiro. Correu para lá, colocou o adaptador na tomada, ligou o secador e voilá! Ele funcionou lindamente! E como era potente! Iria secar e modelar seus cabelos com perfeição! Pegou uma mecha e testou com uma escova. Perfeito! Pegou outra, e mais uma. E antes que terminasse a terceira começou a sentir um cheio forte de queimado. Indignada pensou: - Droga, mal comprei essa porcaria e já tá queimando. Será que é o adaptador? -Olhou para a tomada e nada. Cheirou o secador e não parecia que o cheiro vinha de lá. Olhou para a porta do banheiro e viu uma fumaça. Saiu correndo e todo o minúsculo apartamento estava tomado por espessa neblina.

O pão frito tinha virado carvão. O secador funciona perfeitamente há 7 anos. O adaptador ainda é o mesmo e dá um pouco de trabalho.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Se

Da angústia regurgita-se o nojo,
À carne precipita a alma,
A lágrima antecede o gozo,
Da dor emergente, a calma.

Se sofre, tira a luz do lodo,
Se aprende, tem poder na palma,
Se humilde, reconstrói o trato,
Se afável, chama assim se torna.

Cintila o olhar perene,
Candura, em amor transforma,
Orgulho, seu labor enfrente,
Muralha, seja tua mente,
E beleza, seja tua forma.

(Poesia resgatada de 1999 ou 2000, vai saber. Época em que ainda queria ser boa.)

quarta-feira, 1 de março de 2017

Ave, a Maria!

Estou aqui pra te lembrar de sentir.
Estou aqui pra te lembrar de sofrer.
Mesmo que pra mim seja difícil existir
É meu papel não te deixar esquecer
Estou entre as brechas da tua rotina
Dessa máquina de entorpecer
Estou entre as pírulas e vitaminas,
Gadernais, LSDs
E pensas que tudo te faz bem
E que precisamente, de mim não precisa
O artista nunca lhe convém
Sou vagabunda, malandra ou vaidosa
Mesmo eu te dando em poesia e prosa
A saída do teu torpor, amém.




No ventre te protejo

Dorme, minha filha, dorme
Que tua mãe vela teu sono 
E quando estiver em meus braços
Deixas ser puro abandono

Aproxima-te dela quanto pode
Encosta tua cabeça em seu peito
E no leito, sinta o calor do meu corpo
Sorva o leite que jorra em teu socorro
Tudo agora parece direto
Ouça alto minha respiração
Sinta meu coração junto ao teu
Sinta que tudo te acalma
No corpo que não te esqueceu

Tua mãe está aqui, quieta
Pensando se o amor pode curar
Intimamente, uma forma arquiteta
De você ao seu ventre retornar



segunda-feira, 8 de junho de 2015

Tear da Vida



Ai coração, acalma-te!
Coração, confia!
Coração, perdoa!
Que o tempo é capaz de te ajudar
De mostrar o que é bom e o que é ruim
Talvez não tenha ele pra mim
Mas pro outro é capaz de atender

Pela aranha que a teia fia
Pelo amor que a voz ecoa
Vai coração, perdoa!
Deixa-te enternecer!

Não toma teu fruto pra ti
Que o fruto não é só seu
Apesar do termo: dividir
O outro nunca entendeu

Ai coração, por mim
Pare de se defender
Se é teu destino se iludir
Apenas deixe acontecer...

sábado, 30 de maio de 2015

Canto

Eu canto minhas tristezas
Porque elas não tem lugar
Alegrias encontram pessoas
Os braços encontram abraços
Mãos estendidas, apertos
Risadas são fáceis de dar
Eu canto o que não é certeza
A dúvida não tem lugar

Angústias: veleiros sem proas
Medos são nós sem laços
Eu canto os meus cansaços
Minhas tristezas não tem pousar
Eu canto o que não tem espaço
Eu canto o que não tem beleza
Eu canto a tua tristeza
Pra que tu não precises cantar

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Lágrima






Como posso, agora, neste momento,
neste piscar de olhos,
neste único suspiro,
ser tão feliz e tão triste?

Como cabe, não entendo,
ao mesmo tempo,
um sorriso
onde a lágrima persiste?

Como cabe tanto amor?
Será que é esse o motivo?
Já no peito não comporta.
Por isso a garganta embarga
e pelos olhos transborda, em lágrima.