sábado, 25 de fevereiro de 2023

Árvores de pássaros, flores e pedras

 A vida é um desperdício de tempo

porque o tempo, a gente sempre gasta

Nunca há tempo que basta

Embora, agora me pareça que o tempo sobra


Sinto que vivo num ciclo

Onde como pedras e vomito flores

E as jogo nos corredores

Sem saber ao certo para quem dar


A vida é um desperdício de cores

É música que ninguém lê

É poesia que ninguém ouve

A vida é uma fonte de água que não cansa de jorrar


É a árvore da esquina

que nos galhos sem folhas

coleciona pássaros

É o caminho que ninguém olha

porque está muito perto

porque está sempre lá


Talvez minhas falhas sejam espaços

que abrigam minhas próprias aves

E talvez eu siga sendo espetáculos

repletos de cadeiras vazias


A vida é um desperdício de ironias.


Queria que tivessem mais cuidado ao cortar árvores!

Cuidado ao cortar árvores! Cuidado!

Podem estar destruindo a poesia

na vida de alguém que nota!

na vida de alguém, que torta,

come pedras e vomita flores

e que aplaude ausências

preenchidas por pássaros.




quinta-feira, 4 de novembro de 2021

O Pão

 


 Odiava fazer compras, mas quando resolvia, encarava como uma verdadeira missão. Se preparou financeiramente, pesquisou a melhor marca, pesquisou a loja mais barata e lá foi ela encarar o busão. Chegando na loja, ficou muito satisfeita com o formato e a aparência robusta do novo secador de cabelo. Doía-lhe a alma ter que gastar aquele volume de dinheiro, mas falava para si mesma que valia a pena, pois esse secador iria ser muito usado e durar bastante. A vendedora lhe avisou de um “porém” que lhe deixou apreensiva: o plug do secador era padrão americano, maior que o buraco da tomada. No entanto, segundo a vendedora, ela acharia um adaptador com facilidade em qualquer loja de material elétrico.


Sua missão tinha adquirido uma complexidade que não tinha previsto. Não iria voltar pra casa com um secador que não conseguisse usar. Procurou na mesma rua uma loja para comprar a peça que iria lhe atender. Achou a loja, mas o adaptador não. Começou a prever que tinha sido enganada pela vendedora. Passou em mais duas lojas e nada. Já estava anoitecendo e resolveu voltar pra casa.

Morava sozinha num kitnet de um cômodo que lhe atendia razoavelmente bem. O locador morava no mesmo prédio e era uma pessoa tranquila e com boa vontade, sempre simpático e prestativo. Ao vê-lo, resolveu lhe perguntar se por acaso ele tinha algum adaptador que lhe resolvesse o problema. O homem disse que não, mas que esperasse um pouco. Pegou um adaptador da própria parede, uma faca quente e arrombou um dos furos. Testou com o plug do secador. Sucesso total.

Ela subiu agradecida e animada, embora ligeiramente temerosa de causar algum curto circuito com esse jeitinho do seu senhorio. O mais importante é que tinha completado a missão e ainda economizado, já que não precisou comprar mais uma peça. Queria muito testar o secador, mas a fome era maior. Como não tinha muita coisa que pudesse comer rapidamente, resolveu fazer um pão frito.

A fome estava muito grande. Não tinha percebido quanto tempo estava sem comer e tudo parecia urgente: o secador e a comida. Abriu o pão, colocou na frigideira e olhou para ela como se fosse demorar uma eternidade. Olhou para o secador que ainda estava na sacola e o desembrulhou. Pegou o adaptador que seu vizinho improvisara e viu que encaixava perfeitamente. Precisava de uma tomada e só tinha uma no banheiro. Correu para lá, colocou o adaptador na tomada, ligou o secador e voilá! Ele funcionou lindamente! E como era potente! Iria secar e modelar seus cabelos com perfeição! Pegou uma mecha e testou com uma escova. Perfeito! Pegou outra, e mais uma. E antes que terminasse a terceira começou a sentir um cheio forte de queimado. Indignada pensou: - Droga, mal comprei essa porcaria e já tá queimando. Será que é o adaptador? -Olhou para a tomada e nada. Cheirou o secador e não parecia que o cheiro vinha de lá. Olhou para a porta do banheiro e viu uma fumaça. Saiu correndo e todo o minúsculo apartamento estava tomado por espessa neblina.

O pão frito tinha virado carvão. O secador funciona perfeitamente há 7 anos. O adaptador ainda é o mesmo e dá um pouco de trabalho.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Se

Da angústia regurgita-se o nojo,
À carne precipita a alma,
A lágrima antecede o gozo,
Da dor emergente, a calma.

Se sofre, tira a luz do lodo,
Se aprende, tem poder na palma,
Se humilde, reconstrói o trato,
Se afável, chama assim se torna.

Cintila o olhar perene,
Candura, em amor transforma,
Orgulho, seu labor enfrente,
Muralha, seja tua mente,
E beleza, seja tua forma.

(Poesia resgatada de 1999 ou 2000, vai saber. Época em que ainda queria ser boa.)

quarta-feira, 1 de março de 2017

Ave, a Maria!

Estou aqui pra te lembrar de sentir.
Estou aqui pra te lembrar de sofrer.
Mesmo que pra mim seja difícil existir
É meu papel não te deixar esquecer
Estou entre as brechas da tua rotina
Dessa máquina de entorpecer
Estou entre as pírulas e vitaminas,
Gadernais, LSDs
E pensas que tudo te faz bem
E que precisamente, de mim não precisa
O artista nunca lhe convém
Sou vagabunda, malandra ou vaidosa
Mesmo eu te dando em poesia e prosa
A saída do teu torpor, amém.




No ventre te protejo

Dorme, minha filha, dorme
Que tua mãe vela teu sono 
E quando estiver em meus braços
Deixas ser puro abandono

Aproxima-te dela quanto pode
Encosta tua cabeça em seu peito
E no leito, sinta o calor do meu corpo
Sorva o leite que jorra em teu socorro
Tudo agora parece direto
Ouça alto minha respiração
Sinta meu coração junto ao teu
Sinta que tudo te acalma
No corpo que não te esqueceu

Tua mãe está aqui, quieta
Pensando se o amor pode curar
Intimamente, uma forma arquiteta
De você ao seu ventre retornar



segunda-feira, 8 de junho de 2015

Tear da Vida



Ai coração, acalma-te!
Coração, confia!
Coração, perdoa!
Que o tempo é capaz de te ajudar
De mostrar o que é bom e o que é ruim
Talvez não tenha ele pra mim
Mas pro outro é capaz de atender

Pela aranha que a teia fia
Pelo amor que a voz ecoa
Vai coração, perdoa!
Deixa-te enternecer!

Não toma teu fruto pra ti
Que o fruto não é só seu
Apesar do termo: dividir
O outro nunca entendeu

Ai coração, por mim
Pare de se defender
Se é teu destino se iludir
Apenas deixe acontecer...

sábado, 30 de maio de 2015

Canto

Eu canto minhas tristezas
Porque elas não tem lugar
Alegrias encontram pessoas
Os braços encontram abraços
Mãos estendidas, apertos
Risadas são fáceis de dar
Eu canto o que não é certeza
A dúvida não tem lugar

Angústias: veleiros sem proas
Medos são nós sem laços
Eu canto os meus cansaços
Minhas tristezas não tem pousar
Eu canto o que não tem espaço
Eu canto o que não tem beleza
Eu canto a tua tristeza
Pra que tu não precises cantar

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Lágrima






Como posso, agora, neste momento,
neste piscar de olhos,
neste único suspiro,
ser tão feliz e tão triste?

Como cabe, não entendo,
ao mesmo tempo,
um sorriso
onde a lágrima persiste?

Como cabe tanto amor?
Será que é esse o motivo?
Já no peito não comporta.
Por isso a garganta embarga
e pelos olhos transborda, em lágrima.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

A não existência

Eu só vivo quando escrevo.
Todos os outros momentos,
Não respiro.
Eu te olho e não respiro.
Eu te falo e me falta o ar.

Tudo que não está no texto, definha.
Esta é a angústia minha.
E ela está lá,
No olhar sufocado
Na fala embargada.
Só não está nessas linhas
Só nessas linhas, que ela não está

Eu escrevo pra não morrer.
Eu escrevo pra não matar!
Eu só vivo quando escrevo.
Todos os outros momentos,
Não estou lá.



segunda-feira, 14 de julho de 2014

Canção ao desamor

Há tanta tristeza em meu peito que eu não sei o que fazer.
Também não sei de onde vem esse pesar sem fim.
Só sei que ele é grande e está em mim...
É grande e está em mim.

O mundo não me parece próprio para caber
Essa pessoa que sente tudo que é triste, que sente tudo que chora.
Só sei que a lágrima é minha agora.
A lágrima é minha agora!

Então me escuta por um momento, deixa eu te devolver
O teu lamento, a tua revolta, a tua esperança morta
O teu ódio, a tua injustiça, o teu desdém bateu à minha porta.
O teu rio desaguou em mim.
Teu rio desaguou em mim!

Quero embora, não sei pra onde, quero um lugar que me proteja
Quero que não me encontre esse dissabor que tu festejas
Sonhei com um lugar outrora, que me cabia enfim.
O lugar me cabia enfim!

Tinha luz em todos os cômodos e cadeiras amarelas
Tinha flores nas janelas, detalhes em jasmim
Tinha o amor que me espera
Amor sem fim
Quero o amor sem fim...


terça-feira, 8 de abril de 2014

Aprendendo a plainar


Eu ouço o que me diz o vento
Como quem ouve uma melodia
Meu corpo segue ao relento
Minh'alma é cotovia

Às vezes o vento é forte
Parece que está a cantar:
Voe comigo pro norte!
Saia desse lugar!
Minh'alma se lança no espaço
Meu corpo não sabe voar

Minha alma inconformada
Planeja, constrói, projeta
para meu corpo, asas!
Forças para minhas pernas!

Novamente, num momento insano
Lanço meu corpo no ar
Minh'alma se rejubila
Meu corpo começa a cantar
Mas o vento me diz num sussurro:
Agora sou brisa, sou brisa...

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Meus Passos




Se me afastas, eu me afasto
Se te aproximas, me aproximo
Não exageres, contudo, no teu impensado ato
Que no conflito não sou tão exímio
E no voltar, meus braços estão mais frouxos
E minhas vistas mais enevoadas

Se me afastas, eu me afasto
Se te aproximas, me aproximo
Pois não há disputa, nem luta pretendida
Há apenas as minhas retiradas
e em contra partida, tuas investidas

No entanto, fique atento
Se me queres perto, não me afastes
Não penses que é batalha vencida
pois quando me vou, meus passos largos
podem ser maiores que tua medida

Patricia Eugênio

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Fogo e Água



Às vezes eu sou como a água.
Às vezes eu sou como o fogo.
Às vezes eu me misturo,
dissolvo
me envolvo
me igualo

E quando está tudo calmo
E quando já não há defesa
Te inflamo
Provoco
Te incito
Sou chama acesa!

Não estou mostrando quem sou
Não sou de me fazer entender
Sou apenas de ser
Eu sou plena, de ser
Fogo e água

quinta-feira, 14 de março de 2013

Medo




Esfumaça-te, dissolve-te
nas brumas da manhã que está pra começar
Não te quero, meliante
não venhas a alegria novamente me roubar

Vá, augúrio que abafa
minha alegria eminente
És da minh'alma, mordaça
És a dor intermitente

Deixas que eu dê este grito sufocado
Sai do corpo que definha mas te aguenta calado
Já sei quem tu és, não é nenhum segredo
És o mal que me desvasta e teu nome é: medo!

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Fonte do meu sofrer





Ó fonte do meu sofrer,
Não quero dizer-te, mas és.
Ou talvez seja eu quem te alimenta
Entupindo-lhe de choro, o teu viés.
Só sei que a mim parece ser
Inesgotáveis féis...

Ó fonte do meu sofrer,
Cessa-te agora e de uma vez.
Escoa tua água, encontra tua seca!
Meu coração já não mais te aguenta.
Precisa de forças para amanhecer.

Ao declamar estes versos infiéis,
Solto dos meus lábios intocados,
Uma súplica, um murmúrio, um lamento.
Peço-te, imploro-te, ajoelho a teus pés!
Ó fonte do meu tormento
Seja finita, já que fugaz, não és!

sábado, 10 de novembro de 2012

Divagações



Nos meus olhos, entre os sorrisos de alegria
há sempre a melancolia,
há sempre uma despedida;
e são tantas na minha curta vida
e tantos são os desencontros
que já nem sei entre meus encantos,
qual perece ou qual, descrédulo, se finda.

Já não sei quando meu sorriso
sem mácula,  e de medo desprovido,
amorosamente se abrirá.
E não sei como se encontra
esse último sentido
que o erro entre meus acertos, descortinará.

Não sou mulher, não sei as regras.
Não sigo o protocolo dos desejos,
não sei caminhar por entre as frestas.
Sou um ser humano desprovido de malícia
que completamente se dá
e completamente se retira
às dores, aos amores e às delícias....

domingo, 30 de setembro de 2012

Quimera



Pensando em ser mais corpo que espírito,
talvez para fincar mais meus pés à terra
e menos aos céus vaguear minha mente,
percebo que me tornei qualquer coisa de diferente.
Um ser à parte, uma quimera...

Pois quanto mais força adquire meu corpo,
mais ainda dele me liberto.
O que dantes era ferrugem e rangia;
o que era cinza de poeira que estava coberto,
agora é silêncio, é leveza, primavera.

E me torno o oposto do que queria:
um ser que plaina no reino das ideias,
do imaginário, da poesia
e um ser que  cada vez mais se distancia
daquilo que um dia quisera...

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Vertigem





Meu coração é uma montanha russa
Minha vida é, portanto, só vertigem
Na verdade pouca coisa me aflige
Só a falta do teu amor me entristece.
Vez em quando, lá vem ela e me acusa:
- Por quê sentes? Por quê ainda se enternece?
- Por quê não aceitas logo esta recusa?
É, meu caro, eu não sei essa resposta!
Pois quando penso que passou, ele aparece
Esse amor que, de teimoso, não perece
Indo e vindo neste caminho sem sentido
Não contente, quer sentir o vento no rosto
e displicente na janela se debruça
Ah, meu coração é traiçoeiro
Ah, meu coração é uma montanha russa!


segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Ecos





Esconda a tua alma enquanto é tempo
Vá, esconda-te ao relento!
Que imperioso é o ser, o sentir
Deixa a tua ânsia se extinguir
Resolve-te na tristeza
Ainda há alento na beleza
Que a renuncia à tudo traz!
Vá, vá embora,
Sem se mostrar a ninguém
E encontre na solidão algo além da tua paz.

domingo, 1 de julho de 2012

Esmeril da vida





Que fardo é este que carrego comigo?
Onde a dor da alma dilacera o corpo
Onde a dor de um coração partido
vem também rasgar minhas entranhas

Porque será que sempre me acompanhas
Como uma sombra, um espectro, um silêncio
A gerar sempre uma despedida
A mostrar do amor um falso encanto

O que quer da minha alma ainda,
se não posso desaguar meu pranto?
Este rio, no meu corpo, é ferida
Este rio, na sua alma, é espanto

Eu só sei que semeio em minha vida
tudo que minha alma tem de amor
Mas minha alma purifica ainda
Vida, teu esmeril  é a dor!